Mudança de nome do Teatro das Bacabeiras gera protestos entre a população
Atualizado: 12 de mai.
Decisão aprovada pela Assembleia Legislativa muda o nome do palco da cultura amapaense para "Teatro das Bacabeiras – Amadeu Lobato", provocando reação de artistas, historiadores e jornalistas.

O tradicional Teatro das Bacabeiras, um dos principais símbolos culturais do Amapá, passará a se chamar "Teatro das Bacabeiras – Amadeu Lobato". A mudança foi aprovada por unanimidade pela Assembleia Legislativa do Amapá nesta quarta-feira (6), em projeto de lei de autoria do deputado Jesus Pontes. A decisão, no entanto, não foi bem recebida por parte da população e da classe artística local, que já promovem protestos e debates acalorados nas redes sociais e em manifestações públicas.
Construído e entregue durante a gestão de Aníbal Barcelos, primeiro governador eleito do estado, o teatro tem 36 anos de história. A inclusão do nome de Amadeu Lobato (foto abaixo), segundo a lei aprovada, é uma homenagem à memória do artista, reconhecido como mentor, formador de atores e incentivador do teatro no Amapá. Lobato morreu no dia 6 de janeiro deste ano.

A força simbólica do nome "Bacabeiras"
Oposição à mudança já se organiza. O publicitário e jornalista Walter Jr. do Carmo lidera uma corrente crítica, argumentando que o nome original não foi escolhido ao acaso. "Quando foi inaugurado, no início dos anos 90, houve debate, pesquisa e discussão com artistas, jornalistas, historiadores e gente que conhecia a alma cultural do Amapá", afirmou.
Segundo ele, "Bacabeiras" faz referência à bacaba, fruto amazônico que deu origem ao nome Macapá – "terra de muitas bacabas". "O teatro não homenageia uma pessoa. Homenageia um povo", resume. Para Walter Jr., acrescentar o nome de Amadeu Lobato, por mais merecedor que seja, descaracteriza uma escolha conceitual e identitária. "Amadeu foi gigante. Mas homenagear não precisa descaracterizar", pondera, sugerindo que o anfiteatro da Fortaleza de São José – onde Lobato eternizou o espetáculo "Uma Cruz para Jesus" – seria o local mais adequado para a homenagem.
"Desrespeitar a identidade do povo amapaense"
A historiadora e professora da Unifap, Fátima Lúcia Carrera Guedes, foi ainda mais incisiva. Ela relembra que, na década de 1990, artistas, jornalistas, escritores e historiadores se reuniram para escolher o nome do novo teatro. O poeta Alcy Araújo foi o primeiro nome sugerido, mas prevaleceu o entendimento de que escolher uma única pessoa seria limitante. Foi a professora e ativista cultural Zaide Soledade quem propôs "Teatro das Bacabeiras" – uma homenagem à identidade, à origem do nome Macapá e à memória coletiva.
"E houve grandeza nisso. A Alcinéa Cavalcante, Alcione e Alcilene renunciaram à homenagem ao próprio pai, Alcy Araújo, em nome de algo maior: o respeito à coletividade", recorda a historiadora. Para Fátima Lúcia, mudar o nome agora é "desrespeitar o Alcy Araújo, desrespeitar quem construiu essa escolha, desrespeitar a professora Zaide Soledade [...] é apagar identidade".
Um histórico de apagamentos
Críticos apontam que a tentativa de alterar o nome do Teatro das Bacabeiras se insere num processo mais amplo de apagamento da memória histórica no Amapá. Entre os exemplos citados estão a substituição de nomes originais de bairros tradicionais de Macapá: Igarapé das Mulheres virou Perpétuo Socorro; Jacaré Acanga, Jesus de Nazaré; Vacaria, Santa Inês; e Beirol, São Pedro.
Outro caso emblemático, lembrado pelos opositores da medida, ocorreu em 2017, quando o então presidente da Associação Comercial do Amapá, Altair Pereira, propôs a troca da imagem de São José da Pedra do Guindaste, ignorando o valor artístico e histórico da obra, feita por Antônio Ferreira da Costa, um dos mais importantes artistas e arquitetos da história amapaense.
Tentativa anterior e reação
Não é a primeira vez que se tenta modificar o nome do teatro. Em 2015, houve uma proposta para incluir o nome de Pádua Borges, o eterno "Lurdico". Na ocasião, a reação da classe cultural foi imediata. O escritor Fernando Canto resumiu o sentimento geral: mudar o nome do teatro seria apagar parte da memória construída pelo próprio povo do Amapá. A mesma discussão surgiu quando se quis renomear a Praça Floriano Peixoto em homenagem a Sebastião Mont'Alverne, tendo a jornalista Alcinéa Cavalcante alertado que a homenagem acabaria expondo a família a um debate desgastante.
Enquanto a lei aprovada pela Assembleia Legislativa aguarda sanção ou vetos, as críticas se dividem. Para uns, tratar-se de justa homenagem a um grande nome do teatro local. Para outros, é um atentado à memória coletiva que o Teatro das Bacabeiras representa. Como resume a professora Fátima Lúcia Carrera Guedes: "Um povo sem memória vira apenas endereço no mapa. E o Teatro das Bacabeiras é memória viva".











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