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ELE CONTA TUDO: como o crime organizado transformou comunidades inteiras em curral eleitoral para beneficiar Furlan

há 16 horas
4 min de leitura

Ex-suplente de vereador cassado pelo TRE/AP por envolvimento com facção criminosa, Luanderson Alves, o Caçula, conta em delação premiada como o candidato Dr. Furlan teria se beneficiado de acordo com o crime organizado para se eleger em 2024 e favorecer a entrada do crime na política do AP.



“Através da associação, começou a chegar os políticos pra dentro do bairro, pra ajudar né a nossa comunidade. Limpeza, é, cesta básica, é, essas coisas.”


A frase, extraída do relato de Luanderson de Oliveira Alves, o “Caçula”, ex-candidato a vereador de Macapá cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP) por abuso de poder econômico, resume o modus operandi de um esquema que, segundo as investigações, transformou comunidades inteiras em currais eleitorais no Amapá.


Caçula negocia acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal (MPF) . Em vídeo gravado, ele detalha como o crime organizado teria se infiltrado na política local, com o suposto conhecimento e participação do então prefeito de Macapá e atual candidato ao governo do Amapá, Dr. Furlan (PSD).


A Origem do Esquema


Segundo o relato de Caçula, tudo começou com a aproximação entre a facção Família Terror do Amapá (FTA) e a estrutura municipal. Ele conta quando Jesaias da Silva, o “Jeiza”, foi nomeado subsecretário de Zeladoria Urbana pelo prefeito Furlan.


“O prefeito colocou o Jeiza no Macapaba. Prefeito Furlan, ele colocou o Jeiza e nomeou ele como subsecretário.”


A partir dessa nomeação, Caçula diz ter começado a frequentar os bairros ao lado de Jeiza. A relação se estreitou durante a organização de festas comunitárias nos habitacionais com a autorização de Furlan.


“O Dr. Furlan “deu” os habitacionais pra ele, aí a gente foi fazer a festa.”


Foi durante a montagem de uma dessas festas, no Residencial Macapaba — conjunto habitacional com mais de 30 mil moradores —, que o acordo teria sido selado. Caçula relata que seu primo ligou para seu telefone querendo falar com Jeiza.


“E ele falou com ele, e eles entraram num acordo. Esse acordo, um acordo político, que ele ia ter livre-arbítrio.”


O Preço do Silêncio


O relato descreve um sistema de pagamentos mensais para garantir que o território fosse “fechado” para a oposição. O valor teria começado em R$ 10 mil, subido para R$ 15 mil e se estabilizado em R$ 20 mil.


“A intenção de tudo era o Furlan entrar em qualquer área dele e ninguém mexer com ele.”


Questionado sobre a possibilidade de outros candidatos entrarem nesses bairros, a resposta é categórica:


“Só se tivesse ordem dele, se não, não entrava.”


O esquema, conforme o depoimento, envolvia outros nomes além do prefeito. Caçula cita acordos firmados com “Simão” e “Neto” (Neto Furlan, irmão de Dr. Furlan - foto acima). Os pagamentos, segundo ele, eram operacionalizados por essas lideranças e entregues à esposa de um líder da facção.


“Os pagamentos já estavam acontecendo, só que quem pagava eles lá era o Simão e o Neto.”


A dinâmica descrita é detalhada: no dia 5 de cada mês, Jeiza pegava o dinheiro e repassava para “Bruna”, esposa de “Rafael”, apontado como liderança da FTA. Caçula afirma que atuava como intermediário, levando Jeiza a localidades como Mucajá, Miracema e Açucena.


A Lógica do Território


O depoimento de Caçula descreve como funcionava o controle territorial que, segundo o Ministério Público Eleitoral, caracterizou abuso de poder econômico .


“Dentro do Macapaba, quem é da base do Furlan podia entrar. Quem não for da base dele não entra.”


O critério era simples: “Ele pagava. Os outros não pagava.”


A autorização para entrada de políticos ou comitivas era precedida de ligações. “Ele ligava, ‘Chefe, chefe, olha, o chefe vai entrar hoje lá na Ambrósio’.” Jeiza, então, repassava a informação a Rafael: “Não é para levar polícia. E pode entrar com a comitiva.”


A polícia, segundo o relato, não tinha acesso.


“Polícia não entrava. Não tinha como outro candidato entrar, porque não entrava, a oposição não entrava.”


A Candidatura da Esposa


Caçula narra também como a candidatura de Rayssa Furlan foi lançada dentro dessa estrutura.


“Olha, vamos lançar a minha esposa, e eu quero que vocês apoiem. Vocês estão comigo?”


Questionado sobre a captação de votos, ele descreve uma dinâmica de troca e ameaça.


“Captação que você fala, é para ele, ele ia pedindo, que ele chegava a ameaçar, para vencer se ele. É, tipo, é, ou vota, ou vai para Pisa.”


Ele também menciona que Jeiza negociava “pontos da cidade”. Cada bairro tinha um valor específico: “Buritizal é R$ 100 mil, R$ 200 mil. Ou Novo Horizonte é tanto.”


A Versão de Furlan


Dr. Furlan nega a acusação, disse ser alvo de perseguição política. A defesa do ex-prefeito também sustenta que as nomeações de cerca de 12 integrantes de facções criminosas durante sua gestão seguiram os procedimentos legais e que cargos de confiança eram preenchidos a partir de indicações políticas .


A Decisão da Justiça Eleitoral


Em agosto, o TRE-AP cassou o diploma de suplente de vereador de Caçula e o declarou inelegível por oito anos. A Corte reconheceu que a campanha dele se beneficiou da estrutura e do domínio territorial da FTA no Macapaba .


A procuradora regional eleitoral no Amapá, Sarah Cavalcanti, manifestou preocupação com a infiltração do crime organizado nas instituições. Segundo ela, o domínio sobre territórios é a ferramenta central usada por facções para manipular o pleito, seja impedindo a entrada de adversários, cobrando pedágios de acesso ou praticando o “loteamento” de bairros em troca de apoio e favores futuros .

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