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As Sofias, o Engasga e o Poder

29 de abr.
10 min de leitura

O ENGASGA havia atacado o que de mais frágil existia em nossa sociedade de então: as meretrizes que viviam nas palafitas aos arredores do lendário Bar Caboclo.”



*Por: Rubens Gemaque*


Macapá, até bem recentemente, ali por volta do final dos anos 60 e início dos anos 70, não passava de um vilarejo. Encravado entre as águas do caudaloso rio Amazonas e os mistérios da maior floresta úmida do mundo, tínhamos o cenário ideal para a proliferação de lendas, mitos e estratégias assombrosas. Por séculos de abandono e com as paredes em ruínas, tomadas pelo avanço da vegetação arbórea, a enigmática Fortaleza de São José completava esse cenário quase que fantasmagórico.


Os ribeirinhos, os mais antigos, garantiam que por aqui a grande e mitológica cobra Norato fez moradia. Com o codinome de Sofia, por muito tempo abarrancou-se nas proximidades da Ilha de Santana e de lá, como a "sentinela do norte," protegia os filhos desta terra das mazelas e catástrofes naturais. Sua presença nas profundezas das águas santanenses tem registro desde os tempos em que, veladamente, o III Reich cobiçava as terras e riquezas tucujus. Através de um plano secreto, os nazistas pretendiam expandir os domínios da Alemanha além-mar e implantar em terras do Amapá a sonhada porção americana do império pretendido por Hitler. Seria a Guiana Alemã.



Muitos dos eventos e fenômenos com ocorrência nesse período, na região, foram debitados na conta de Sofia. Hoje não se fala mais nela: arribou daqui! O motivo não se sabe, nem para onde foi... Mas foi no início dos anos setenta, já no limiar das forças de Sofia, que o povo da terra das bacabas — mas por preferência consumidores de açaí — vivenciou sua maior prova de resistência emocional e psicológica.


Em uma daquelas tardes chuvosas, no início do mês de maio de 1970, depois de fartas tigeladas de açaí, extasiados pelos efeitos do nosso fruto sagrado, os macapaenses, ainda sonolentos, foram tomados por uma onda de pânico coletivo. O grito uníssono: "OLHA O ENGASGA!" ecoou por toda a cidade. Das proximidades do Lago do Sapo, onde minha família residia (hoje a belíssima Praça Floriano Peixoto), até os cafundós do Jacaré Acanga (hoje o elitizado bairro Jesus de Nazaré); das matas do Igarapé das Mulheres até as cercanias da Cobrinha Verde (hoje bairro do Buritizal). Passando pelas baixadas da Favela, Remanso, Vacaria e Maria Mucura (hoje Praça do Lugar Bonito), a pergunta era a mesma: cadê o Engasga?


Nos bairros mais providos economicamente a situação não era diferente. Central, Trem, Cea e Beirol foram o start para a correria desvairada que dominou a cidade e desorientou o povo. Macapá entrou em completa histeria e assim permaneceu por um grande período. Desde aquela tarde cinzenta daquele distante inverno amazônico, passamos longos dias, meses e talvez anos de incertezas. A insegurança, convivendo com o desconhecido, com o fantasmagórico, com um provável manipulador anônimo — que somente o conhecimento e o engajamento político iriam nos revelar, tempos mais tarde, sua verdadeira face.



Muitos anos depois, mesmo com toda a obscuridade em torno desses fatos, ficamos sabendo que se tratou de um dos planos mais covardes e acintosos contra uma população pacata e ordeira. Foi forjado nos porões da ditadura para justificar a criação de uma polícia especializada para combater os opositores do regime que, à revelia do povo, se implantava no país. Aqui, em termos de segurança, existia apenas uma Guarda Territorial e o famoso Tiro de Guerra. A mansidão do povo e as desordens que existiam não exigiam nada além disso.


Com os sinais do abandono por Sofia, dava-se início a um novo estilo de guardiões; o povo não podia ficar desamparado. Era preciso um comandante mais enérgico, que usasse coturnos, capacetes e fuzil. Um guardião que fosse capaz de conter o abominável ser invisível, disforme e de grande mobilidade que, ao apagar das luzes geradas pela velha usina da Força e Luz, tirava o sossego de toda a cidade.


Com o pânico instalado, o toque de recolher era cada vez mais iminente. Não era recomendado circular depois das dez. Os colégios tradicionais da cidade tiveram as aulas do período noturno suspensas. As "piramutabas", como carinhosamente eram chamadas as alunas do Instituto de Educação, poderiam ser o alvo preferido do Engasga. Um pouco antes, no ano anterior, elas já teriam sido vítimas do famoso e enigmático "Homem de Sebo". No horário de saída das aulas, o tarado postava-se nas proximidades do assombroso prédio da velha olaria do governo (hoje esquina da Avenida Padre Júlio com General Rondon) e, na espreita, quando as alunas passavam, ele proferia o ataque. Porém, bem ao estilo do personagem do humorista Chico Anysio, o "vampiro à brasileira", nunca logrou êxito. Sob qualquer reação das vítimas, o escorregadio tarado desistia e escapava embrenhando-se nos igapós da Favela e cercanias, desaparecendo no mato. O Homem de Sebo não vingara, não logrou êxito. Não conseguiu causar o pânico esperado pelo seu criador.



O ENGASGA, sim! Este mexeu com os alicerces da tradicional e pacata sociedade macapaense. Eu mesmo vivi minha alucinante experiência com esse fantasma das noites tucujus. Tinha lá meus 13 para 14 anos; meu pai estava para o Marajó e mamãe precisou ir a Belém. Eu e minhas irmãs ficamos em casa com a nossa avó materna, que viera da fazenda especificamente para isso. Tudo corria bem, apesar da grande boataria que se espalhava pela cidade. Para nós de casa, para mamãe principalmente, o Engasga não passava de uma grande farsa com a finalidade de amedrontar as pessoas. "Isso é conversa para enganar bestas", dizia ela.


Mamãe tinha total razão. Nossas origens marajoaras nos encorajavam bastante. Mesmo assim, os impactos de tudo o que acontecia na cidade reverberavam dentro dos lares, atingindo diretamente as famílias, mas eu nada temia. Nada temendo, certa noite resolvi dar uma volta. Minha nova conquista, uma linda bicicleta, precisava ser mostrada e não seria o tal de Engasga que iria impedir. Peguei minha Monark novinha em folha, ainda "cheirando a leite" — havia comprado há poucos dias — e fui ao encontro dos colegas que há tempos não via.


Como de costume, andamos a esmo pela cidade, dessa vez em busca de notícias do famigerado ser machista e covarde que atacava, preferencialmente, as mulheres. As notícias eram muitas, porém desencontradas. Nessa noite, ainda cedo, ele já atormentara o sossego de muitos. Já havia atacado lá para as bandas do Laguinho, Vacaria, Trem e Igarapé das Mulheres, sempre em locais bem equidistantes da cidade. Minha "patota", todos montados em boas bicicletas, ao sabermos de um acontecido, corríamos para lá, mas, para variar, sempre chegávamos atrasados.


Entretanto, os relatos eram os mesmos. O ENGASGA ou era um homem forte, de porte atlético, alto, barbudo e com vasta cabeleira; ou era loiro, de olhos claros e usava uma longa capa bege. Todos usavam uma bolsa de couro a tiracolo. Este segundo protótipo guardava grandes semelhanças com a figura dos jovens do movimento estudantil da época que faziam resistência ao regime e eram implacavelmente perseguidos pelas forças policiais da repressão política.


Depois de zanzar pela cidade e bater um longo e produtivo papo com os amigos, chegara a hora de retornar para casa. Logo ao despedir-me do último colega que ficara em sua residência, ali na esquina da General Gurjão com a rua Tiradentes, fui traído por minha Monark. O pneu estava literalmente furado. Precisava continuar viagem, só que dessa vez empurrando aquela que sempre me levou, por toda a minha adolescência, aos mais belos e inusitados lugares de minha cidade.


Assim prosseguimos, descendo a ladeira da rua Tiradentes. Aproximavam-se as onze horas; o silêncio da noite era cortado apenas pelo canto de alguma ave noturna ou pelo grave som provocado pelo atrito do pneu furado em contato com a piçarra solta. Esse som expandia-se a ponto de despertar a atenção dos moradores recolhidos em suas casas. A descida da ladeira era íngreme; a rua havia sido recém-aterrada e ainda estava tomada pela piçarra escorregadia que, a qualquer descuido, poderia causar um desastroso tombo. Isso me consolava e diminuía minha decepção com minha tão bem cuidada Monark.


O medo que rondava ao meu redor era logo dissipado pela coragem que sempre me acompanhou. Tudo era motivo para chamar minha atenção e assim espantar o medo e manter o controle da situação. Já não muito distante do meu destino, ao passar em frente a uma casa literalmente fechada — mas que certamente seus moradores gostavam de música —, ouvi o som do rádio ligado que escapava entre as frestas das janelas venezianas e trazia aos meus ouvidos a irreverente melodia dos Novos Baianos: *"Besta é tu, besta é tu... Se não há outro mundo, por que não viver? Não viver nesse mundo... E para ter outro mundo é necessário viver. Viver contando com qualquer coisa..."*


Até hoje não sei explicar a razão, mas aquela música chegou aos meus ouvidos como um alerta de que este era o meu mundo, esta era a minha, a nossa cidade, e que naquele momento estava sendo vítima de uma grande onda de manipulação que claramente nos deixava na condição de meras "bestas". Mesmo sob a égide da força bruta, do terror e do pânico, ninguém poderia impor estilos e normas sobre nós, a não ser que houvesse conivência.


Pensando e caminhando, cheguei na esquina da rua Coaraci Nunes, a uma quadra de casa. Lá, me deparei com o povo na rua: homens armados de cacetes, mulheres descabeladas, crianças chorando. A onda de pânico e de gritos vinha das bandas da São José, esquina com a Mendonça Júnior. O ENGASGA havia atacado o que de mais frágil existia em nossa sociedade de então: as meretrizes que viviam nas palafitas aos arredores do lendário Bar Caboclo.


Não havia lugar mais apropriado para a covarde estratégia do pânico alcançar seu intento. Um igapó, totalmente tomado por palafitas. Lugar de alta insalubridade, frequentado por prostitutas e canoeiros sem nenhuma instrução, bêbados, desocupados e moradores de rua. Aquele era o cenário ideal para o terror agir. E agiu!



Diante do terror que presenciei, manifestado na expressão, falas e comportamento das pessoas, eu também não resisti e fui dominado pelo medo, ao ponto de abandonar minha estimada bicicleta e sair correndo. Corri tanto que somente ao chegar em casa é que me dei conta de que, em um tropeço, havia perdido os sapatos. No dia seguinte, espalhou-se a notícia de que o Engasga havia vitimado algumas prostitutas, entre elas a mais conhecida de todas, que atendia pela alcunha de Quinta-feira.


O estranho ocorrido — que vitimara uma das frequentadoras mais conhecidas e polêmicas da então "zona do baixo meretrício" — espalhou-se como rastilho de pólvora em relva seca por todos os recantos da cidade. No dia seguinte, era só o que se comentava.


Logo cedo pela manhã, ainda sob o efeito do susto da noite anterior e dando prosseguimento aos meus afazeres domésticos previamente determinados pelos meus pais durante suas ausências, fui ao Mercado Central para as compras do dia. O Mercado Central da minha adolescência não era apenas um centro de abastecimento para a população que diariamente circulava por seus longos corredores; ele significava mais que isso. Ele aglutinava toda a diversidade cultural e econômica já presente na sociedade de então. Seus frequentadores não iam lá somente em busca do provir de suas famílias, mas, principalmente, em busca das notícias mais atualizadas. Ele fazia parte do meu mundo; eu tinha o maior prazer em frequentá-lo. O burburinho de seus corredores enchia meus ouvidos de entusiasmo, e as novas informações que chegavam eram logo compartilhadas com todos.


Ia ao Mercado praticamente todos os dias. Nesse dia, porém, minha rotina foi brevemente interrompida. Precisava recuperar minha bicicleta. Antes da missão diária de ir às compras, dediquei parte do horário matinal à busca de minha estimada companheira. Inúmeras vezes retornei ao local onde o pânico e o terror me obrigaram a abandoná-la. Ali, na esquina da Rua Tiradentes com a Coaraci Nunes, eu e minha parceira de andanças nos vimos pela última vez. Até os dias de hoje quando por lá passo, minhas memórias me remetem aquela distante e inusitada experiência. Essa dívida o Estado brasileiro tem comigo. Sem lograr êxito e dominado por um sentimento de perda e decepção, debitei o sumiço do meu único bem, a minha Monark, na conta do "Engasga".


Bem mais tarde, ao chegar ao Mercado, percebi que seus corredores murmuravam notícias frescas. A pauta era o fantasma das noites macapaenses. A caça ao Engasga havia iniciado. O Estado reagiu! Era necessário dar uma resposta imediata aos responsáveis por aquele crime; o "puteiro" a exigia.


A essa altura, o ser antes invisível, disforme e inominável — apenas conhecido por "Engasga" — começava a ganhar nome e referências. Terroristas, paulistas, comunistas e barbudos passaram a ser responsabilizados pelo prolongado clima de pânico e pelo enigmático crime do igapó do Bar Caboclo. A resposta das forças de segurança do regime veio a galope, com uma sequência de prisões de homens até então considerados "de bem" (e de fato o eram). Seus defeitos, erros e pecados resumiam-se ao fato de não terem concordado com o Golpe Militar de 64, embora sequer fizessem oposição ativa ao regime.


Todos seguiam quietos em suas rotinas quando foram levados para as masmorras da grande e enigmática Fortaleza. Após alguns dias vendo o sol nascer quadrado, dormindo na umidade e convivendo com morcegos e ratazanas, foram interrogados, orientados e postos em liberdade. A decisão de prendê-los partira dos porões do regime, consequência da operação batizada com o codinome "Sófia".


Diferente da Sófia mitológica, esta tinha a missão, segundo seus ideólogos, de impedir que a "pátria mãe gentil" fosse infestada e dominada pelos emissários do Kremlin. A outra, a versão postiça da mitológica Cobra Norato, teria servido para amedrontar ribeirinhos abelhudos que ousassem observar as manobras dos emissários do Führer acampados na Ilha de Santana. Estes, sob o disfarce de religiosos e pesquisadores, traçavam um plano de ocupação nazista das terras que compreendiam desde a foz do Rio Oiapoque até a foz do Rio Jari. Entretanto, ambas as "Sófias" guardavam em si uma desprezível semelhança: a mentira.


Dos presos pela Operação Sófia, de apenas um eu nunca mais tive notícia: um estrangeiro de nacionalidade francesa conhecido como Monsieur Le Rouge. Era um homem de longos cabelos e barba branca. De tão clara, sua pele esturricada pelo sol equatorial apresentava uma coloração rosa-avermelhada — daí, supõe-se, a origem de seu apelido: "Senhor Vermelho".


Monsieur Le Rouge chamava a atenção pelo estilo de vida recatado, mas circulava com frequência em sua bela bicicleta MercSwiss preta com detalhes dourados, equipada com retrovisor, campainha e um farol alimentado por um potente dínamo. Não possuía garupa; em seu lugar, levava um rádio de grande antena, provavelmente para ampliar o alcance das frequências. Diziam que era ouvinte assíduo das rádios Moscou, Havana, Tirana e Voz da América, e que se comunicava com agentes da KGB espalhados pelo mundo. Com tal "ficha corrida" e a fama de espião do Kremlin, inevitavelmente tornou-se presa fácil para a nova Sófia.

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