Amapá no centro das manchetes: o que a imprensa nacional mostra, o que ela esconde e o que deseja

Por Fernando França
O Amapá, estado que ostenta orgulhosos 73% do território coberto por áreas protegidas, tornou-se nos últimos dias protagonista de duas grandes reportagens da imprensa nacional. Berço de dois políticos de expressão no Congresso — Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, e Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo Lula —, a terra do meio do mundo vive uma encruzilhada entre preservação ambiental e desenvolvimento econômico. Mas a forma como os veículos do eixo Sul-Sudeste têm contado essa história revela escolhas de narrativas que vão além dos fatos.
Na última sexta-feira (10), a Folha de S. Paulo publicou uma ampla reportagem mostrando que o Amapá é hoje a nova rota do garimpo ilegal na Amazônia. Segundo o jornal, criminosos expulsos da Terra Indígena Yanomami e de Mato Grosso migraram em massa para o estado, impulsionados pelo alto preço do ouro — que quase dobrou nos últimos dois anos — e pela atuação de facções como PCC e Comando Vermelho.
Os números são alarmantes e sensacionalistas: o Ibama já teria identificou mais de 300 quilômetros de ramais clandestinos abertos na floresta para o tráfego de máquinas pesadas. Só em 2026, foram seis operações de fiscalização. Em maio, a operação Calha Norte destruiu sete escavadeiras hidráulicas, dois tratores e 3.300 litros de diesel. Na operação Domo Amazônico, foram destruídos 31 acampamentos. Segundo dados do Greenpeace citados pela reportagem, a atividade garimpeira na Terra Yanomami caiu 95,18% em 2025, mas o problema simplesmente se deslocado para o Amapá.
No entanto, a mesma reportagem que denuncia com propriedade a devastação causada pelo garimpo ilegal também constrói, nas entrelinhas, uma narrativa de suspeição sobre a exploração mineral legal. Em um trecho quase sub-reptício, a Folha menciona que o governador Clécio Luís e o senador Davi Alcolumbre comemoraram a retomada da mineração industrial pela Amapá Minerals (antiga Tucano Gold), em Pedra Branca do Amapari, com a “promessa de gerar empregos”. O jornal informa que o governador não respondeu aos questionamentos sobre licenciamento ambiental, mas que Alcolumbre defendeu o projeto como gerador de trabalho. O leitor fica com a impressão de que há algo errado — mas será que defender empregos para um dos estados mais pobres do país é, por si só, um indicativo de irregularidade? A reportagem não aprofunda essa questão, deixando pairar uma dúvida que conduz o leitor a uma conclusão negativa sem elementos concretos.
Enquanto isso, do outro lado do estado, a revista Piauí dedica sua edição de julho à transformação de Oiapoque, município na ponta norte do Brasil, palco da exploração de petróleo na costa do Amapá num ponto em que a imprensa nacional insiste em chamar de "Foz do Amazonas", confundindo o leitor sobre a localização real dos poços.
A expectativa de royalties bilionários alimenta o sonho de transformar a cidade em uma "nova Dubai", mas a realidade atual é bem diversa: Oiapoque não tem coleta de esgoto, o asfaltamento é precário e há escolas funcionam em casas adaptadas, mas não é regra geral como induz a reportagem. A prefeitura se sustenta com repasses federais e emendas parlamentares. Mesmo assim mesmo, a promessa de desenvolvimento atrai novos moradores de outros estados e até do exterior. Em um ano, a cidade ganhou sete novos bairros, com ocupação desordenada avançando pela Floresta Amazônica em um município que tem 96% do território sob proteção ambiental. A Petrobras ainda não confirmou se há petróleo em escala comercial e realiza atualmente uma perfuração exploratória, mas isso já mudou a rotina das comunidades indígenas, “que não podem mais caçar porque o barulho dos helicópteros expulsou os amimais”, alega a revista.
A reportagem da piauí, no entanto, vai além da denúncia ambiental e constrói um arco político que conduz o leitor a uma interpretação específica. Veja: a revista afirma que Alcolumbre e Randolfe estão unidos em torno da exploração de petróleo na Margem Equatorial, projeto apoiado pelo presidente Lula mas resistido pela ala ambiental do governo. Segundo a publicação, a aliança tem “razões eleitorais” e ambos apoiam a reeleição do governador Clécio Luís enquanto Randolfe busca renovar seu mandato e que a exploração do petróleo seria o “carro-chefe da campanha”, capaz de transformar a economia do estado, hoje o terceiro menor PIB do país.
A revista também cita a fala do governador Clécio em resposta à supostas críticas de comunidades indígenas — "Não queremos ser olhados como santuários. Nossas mães amapaenses, indígenas, quilombolas, ribeirinhas têm direito a sonhar com o desenvolvimento" — mas a frase aparece fora de contexto, como se o governador estivesse ignorando as comunidades, quando na verdade ele está defendendo o direito dos amapaenses a uma vida digna durante entrevistas a imprensa nacional.
Ao final, a piauí lembra que o ex-prefeito de Macapá, Antônio Furlan (PSD), bem avaliado nas pesquisas, pode ameaçar "os planos da aliança Alcolumbre-Randolfe". A mensagem subliminar neste caso é difícil de ignorar: a reportagem não é apenas sobre petróleo, garimpo ou meio ambiente — é sobre desgastar a atual gestão e apresentar uma alternativa política. O que fica de fora dessa narrativa é o contexto mais amplo: o Amapá é o estado mais preservado do Brasil, mas também o terceiro mais pobre. Sua população vive há décadas à margem dos benefícios da própria riqueza natural que protege. O direito ao desenvolvimento não é uma pauta menor — é sobrevivência. A imprensa do eixo Sul-Sudeste trata a Amazônia como cenário, não como sujeito de sua própria história, e transforma questões ambientais em arma política, omitindo que os amapaenses também têm sonhos, necessidades e o direito legítimo de buscar uma vida melhor.
Denunciar garimpo ilegal e questionar impactos do petróleo é jornalismo — mas construir narrativas que politizam fatos, omitem contextos e conduzem o leitor a conclusões pré-determinadas é outra coisa. O Amapá merece ser notícia, mas merece também ser retratado em sua integralidade: com seus dilemas reais, sua gente e sua luta por desenvolvimento sem ser tratado como mero santuário a serviço do imaginário nacional.











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