Mestres do Saber: o livro que transforma a memória da Comunidade do Elesbão em patrimônio
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Às margens do rio Amazonas, onde a água encontra a terra num abraço secular e uma comunidade se curva para ouvir o murmúrio das marés, ergueu-se o Elesbão. Nascido ribeirinho, cresceu com o município de Santana, tecendo sua história no mesmo fio de grande histórica que une gente, madeira e destino. É ali, nesse chão de várzea, que um dos mais profundos saberes amazônicos resiste ao tempo: a carpintaria naval, arte que transforma madeiras em embarcações, sustenta famílias e mantém pulsante a alma de um povo que vive entre águas.
Esse universo de mãos calejadas e memórias vivas encontrou morada permanente nas páginas do livro "Mestres do Saber" — uma obra que transborda rio adentro para registrar, em letras de tinta e respeito, o legado dos carpinteiros navais do Elesbão, comunidade que virou bairro do segundo maior município do Amapá. O lançamento oficial aconteceu na própria Comunidade do Elesbão de Baixo, na sede do Projeto Tempo de Preparação em Missão, em Santana, como um gesto de devolução: o conhecimento que de lá partiu, para lá retornou, coroado em livro.
A obra é fruto de uma parceria entre o Governo do Estado e a Universidade Federal do Amapá (Unifap), e nasceu da escuta atenta e do olhar curioso de três professoras e pesquisadoras do curso de História: Ana Cristina Rocha Silva, Elke Daniela Rocha Nunes (foto) e Alanna Aquemi Santiago Saito. Elas percorreram os estaleiros de terra e água do Elesbão, observaram os detalhes da vida daqueles moradores. Ouviram os mestres da carpintaria naval contarem suas vidas, suas alegrias, suas perdas, suas manhas com a madeira e suas relações com rio.

"É um momento muito importante. Nós passamos anos vindo para a comunidade do Elesbão para conhecer os carpinteiros, escutar suas histórias, seus costumes, suas formas de trabalhar e de construir. O livro é fruto desse projeto, no qual fizemos parte desse cotidiano de criar, saber e fazer, a partir dos saberes tradicionais da Amazônia", emociona-se Elke Rocha, uma das autoras, como quem ainda sente o cheiro de serragem molhada e o balanço suave das canoas ao entardecer.
Mais do que um inventário técnico de como se curva a quilha ou se encaixa a caverna, a obra reconhece os carpinteiros navais como mestres no sentido mais pleno da palavra: educadores e guardiões de um patrimônio cultural. Suas trajetórias revelam um sistema de conhecimento tão complexo quanto a floresta que os cerca — um saber feito de observação das marés, de leitura das madeiras, de respeito herdado de gerações. Cada embarcação que nasce sob suas mãos carrega mais do que uma função prática: transporta histórias, identidades, criatividade, ancestralidade e modos próprios de compreender e habitar a Amazônia.
Entre esses guardiões, brilha com luz própria a figura de Silas Monteiro, 87 anos, um dos pioneiros da carpintaria naval no Elesbão. Desde 1964, ele dedica sua vida ao ofício, e ainda hoje, mesmo com a idade avançada, não larga a paixão — constrói protótipos em miniatura, como quem desenha memórias em madeira.

"Estou muito feliz de poder participar do livro. É importante contar nossas histórias para que a população amapaense possa conhecer e para que elas não se percam", disse, com a voz embargada pela emoção de quem vê sua vida ganhar as páginas de um livro. E completou, com o orgulho de quem plantou sementes: "Uma de minhas maiores alegrias foi ter a oportunidade de transmitir os conhecimentos da carpintaria naval aos meus filhos, para que eles possam repassar esses saberes às próximas gerações e manter viva uma tradição do Amapá."
Mas o livro não se detém apenas nas glórias. Com coragem e lucidez, ele também lança luz sobre as sombras que ameaçam esse ofício milenar: a escassez da madeira, a precarização das condições de trabalho, a invisibilidade profissional, as pressões sobre os territórios ribeirinhos e o distanciamento das novas gerações, seduzidas por outros horizontes. Ao trazer os mestres para o centro da narrativa, a obra denuncia e celebra ao mesmo tempo — porque registrar esses conhecimentos é, antes de tudo, um ato político de resistência.

"Mestres do Saber" assume, assim, uma dimensão cultural, educativa e transformadora. Suas páginas não são apenas um espelho do passado; são uma ponte para o futuro. Ao documentar o saber-fazer dos carpinteiros navais, o livro contribui para seu reconhecimento social, para sua transmissão às novas gerações e para sua salvaguarda como patrimônio imaterial do Amapá.
E assim, nas margens do Amazonas, onde a água encontra a terra e a madeira encontra as mãos, a memória do Elesbão navega para sempre — ancorada na palavra, protegida pelo respeito, celebrada como o que sempre foi: um dos maiores saberes da Amazônia.












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