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Engasga Engasga: a mentira que aterrorizou Macapá e prendeu inocentes

  • há 3 horas
  • 6 min de leitura

Por João Capiberibe

Macapá, 19 de março de 2026


Em 1973, uma onda de pânico tomou conta de Macapá. Mulheres estariam sendo atacadas nas ruas. A cidade parou.


Macapá, capital do Amapá, era uma cidade pacata, com ruas e avenidas largas e bem traçadas. Havia muitos espaços vazios destinados à urbanização futura, onde crianças improvisavam suas brincadeiras. Mangueiras de copas frondosas formavam um mar de sombras — ponto de táxi e de gente sem pressa, parada obrigatória em busca de brisa e proteção contra o sol escaldante do meio do mundo.


Os macapaenses, isolados na margem esquerda do Rio Amazonas, sem televisão e sem rodovia que os conectasse ao restante do país, viviam em um recanto de tranquilidade. Sem grandes ambições e com tempo de sobra, sentavam-se nas portas de casa ao fim da tarde, deixando as horas correrem em conversas simples, longas e sem urgência.


Foi nesse cenário — e entre essa gente pouco voltada para o que acontecia fora dali — que tudo mudou.


De repente, tensão e medo se espalharam como rastilho de pólvora. A vida virou de ponta-cabeça.


Naquele dia de maio de 1973, que parecia seguir como qualquer outro, o rumo da cidade mudou ao meio-dia. O locutor da Rádio Difusora de Macapá — emissora oficial do governo — interrompeu a programação. Com música de suspense ao fundo, leu pausadamente o Comunicado Oficial nº 1, assinado pelo secretário de Segurança Pública, coronel Gentil Almeida Campos:


“A situação é grave e de grande perigo, motivo de aflição e insegurança para as famílias que vivem nesta pacata cidade. Cabe-nos informar que, nos últimos dias, registramos vários ataques com as mesmas características: tentativa de estrangulamento de mulheres indefesas.

Ontem mesmo, ainda com o dia claro, uma mulher foi atacada no momento em que ia ao banheiro no fundo do quintal de sua casa.”


Após longos considerandos, o comunicado recomendava:

1. Evitar saídas desnecessárias, mesmo durante o dia;

2. Reforçar trancas, portas e janelas;

3. Evitar o uso de sanitários localizados no fundo dos quintais.


E concluía:


“Nós, defensores da lei e da ordem, não mediremos esforços para garantir a segurança do povo bom e ordeiro dessa terra.”


Quarenta e oito horas depois, o governo decretou toque de recolher em Macapá, proibindo a circulação de pessoas entre 20h e 6h.


Parecia um pesadelo.


A cidade silenciou. Ruas vazias, portas fechadas. A sensação era de confinamento coletivo. Dentro das casas, o medo circulava livre: qualquer ruído parecia ameaça, e o tempo custava a passar até o amanhecer.


Mas o tempo passou.



Cinco décadas depois, a memória desse episódio — apelidado pelo povo de “Engasga Engasga” — permanecia incompleta. Faltava o depoimento de alguém do governo que revelasse o que se passou nos bastidores do poder.


A Comissão da Verdade, criada em 2013 pelo então governador Camilo Capiberibe, investigou os crimes da ditadura no Amapá, mas encontrou enorme dificuldade para colher depoimentos. Poucos se dispuseram a falar.


Durante muito tempo, vindo dos governantes da época, quase nada se soube, até que um dia…Janete me surpreendeu com um maço de folhas amareladas, datilografadas.


— Lembra disso? — perguntou.

— São textos teus sobre o “Engasga”. Tem entrevista com o Chaguinha… e com o Dr. Adamor.


Comecei a ler e não parei mais.


Eram cerca de trinta páginas: vinte com textos meus, escritos de forma romanceada sobre o “Engasga” e outras com a degravação de duas entrevistas — uma com Francisco das Chagas Bezerra, o Chaguinha, vítima da farsa, e outra com o advogado Adamor Oliveira, então assessor do secretário de Segurança.



Coincidência ou não, eu já estava retomando esse tema para um livro. Mas, diante do ineditismo do depoimento de Adamor, decidi torná-lo público imediatamente.


As entrevistas foram realizadas, ao que me recordo, em dezembro de 1989, no final do meu primeiro ano como prefeito de Macapá. Trinta e sete anos depois, esses escritos perdidos reaparecem, e com eles as entrevistas que compartilho com vocês.


Boa leitura.

Entrevista

Francisco das Chagas Bezerra — Chaguinha. Em dezembro de 1989.


Nascido em 1907, em Fortaleza (CE), militante do Partido Comunista. Chaguinha tinha 84 anos quando me concedeu esta entrevista.


“Isso começou por volta do dia 20 de maio de 1973. Eu só ouvia falar que havia homens atacando mulheres, tentando estrangulá-las, mas sem matar. O medo foi crescendo. Em todos os bairros se falava disso. A cidade entrou em pânico.

Eu não levava muito a sério no começo. Eram muitos comentários. Mas o terror foi tomando conta de todos.”


No dia 31 de maio, ao sair do trabalho na antiga Beira — onde fazia carretos — encontrou um amigo:


“Seu Chagas, estão prendendo muita gente. Já levaram Isnar Lima, Jorge Padeiro e o filho dele. Melhor o senhor ir pra casa.”


Chaguinha seguiu pela Avenida FAB. Ao chegar, a polícia já o aguardava.


“Me deram voz de prisão na porta de casa. Disseram que era por esse ‘negócio’ e por ordem superior. Entraram e reviraram tudo. Livros, fotos… até livro da Rachel de Queiroz. Era horrível. Eu estava apavorado, mas não demonstrei.”


Foi levado à Fortaleza de São José, onde já havia cerca de vinte homens presos.


“No dia seguinte, os soldados entraram mandando todo mundo encostar na parede. Rasgaram roupas, colocaram as camisas na cabeça como capuz. Aquilo era humilhante. Depois nos amarraram com arame.”


Reconheceu conhecidos entre os presos.


“Quando me chamaram pelo nome, amarraram minhas mãos. Um soldado que me conhecia disse: ‘Não aperta muito, é o velho Chagas’. Aquilo me salvou.”


Depois, foram levados em caminhão ao aeroporto e embarcados em um avião do Exército rumo a Belém.


Ao desembarcarem em Belém, foram transportados para a 5ª Companhia de Guarda do Exército. Lá, um oficial ordenou que as amarras fossem retiradas e que os detidos fossem alimentados. Entre os presos, havia uma mulher loira, posteriormente identificada como uma jovem vendedora de confecções em Macapá, acusada de distribuir bombons envenenados para crianças.

Os presos foram chamados individualmente para interrogatório. Hermínio Gugel, ao retornar, demonstrava angústia, afirmando que não seria contra as autoridades. À noite, um soldado tentou intimidar os detidos, ordenando que repetidamente se levantassem e sentassem. Um dos presos, um paraibano com problemas no joelho, recusou-se a obedecer, desafiando os soldados a atirarem nele. Outro soldado interveio, lembrando que os detidos estavam sob a responsabilidade do major Amorim. Depois de três semanas de interrogatórios e maltratos, o inquérito policial militar (IPM), instaurado para investigar o caso, chegou a conclusão que tudo não passara de uma farsa grotesca, e todos foram postos em liberdade.


Entrevista

Dr. Adamor Oliveira

Advogado, à época assessor do secretário de Segurança Pública. Dezembro de 1989


Adamor inicia sua fala com um desabafo que revela o sentimento de perplexidade que o acompanhou anos depois:


“Eu só fui entender o que estava acontecendo muito tempo depois. Quando percebi, pensei: como éramos ingênuos.”


E foi direto ao ponto:


“Gentil Almeida Campos queria justificar a criação da Polícia Militar no Amapá. Para isso, precisava de um fato concreto. A estratégia foi simular ataques para gerar pânico. Assim nasceu o ‘Engasga Engasga’.”


Segundo ele, o personagem central da farsa foi um estrangeiro conhecido como Itapai.


“Ele vivia no Brasil com documento falso. Gentil mandou integrá-lo às rondas. Com o tempo, percebemos que ele próprio era o ‘engasgador’.”


Mesmo com suspeitas, o secretário o protegia.


“Houve uma vez em que ele desapareceu durante a ronda. Nesse intervalo, ocorreu um ataque perto de onde estávamos.”


Paralelamente, começaram a mapear antigos militantes políticos.


“Levantaram nomes de pessoas presas em 1964. Depois vieram as prisões.”


Cerca de vinte pessoas foram detidas e enviadas a Belém em avião militar.


“Quando prenderam todo mundo, os ataques simplesmente pararam.”


O objetivo estava cumprido.


“O Itapai foi colocado no meio dos presos para ouvir conversas e relatar tudo depois. Em Belém, foi liberado. Os demais ficaram.”


O Inquérito Policial Militar foi conclusivo:


“Não havia nenhuma atividade subversiva. O próprio Exército concluiu que tudo não passava de uma simulação.”


O processo foi arquivado.


Sobre o destino de Itapai:


“Gentil mandou que ele deixasse o país pela Guiana Francesa. Foi preso no caminho, voltou, recebeu dinheiro e ordem para desaparecer. Nunca mais se ouviu falar dele.”


Adamor encerra com uma síntese dura:


“Hoje está claro: tudo foi montado. Uma operação para justificar poder e repressão.”


Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.


Histórias como essa nos lembram que a democracia não é um dado permanente — é uma construção cotidiana. Quando o Estado fabrica o medo e manipula a verdade, o que está em jogo não é apenas a liberdade de alguns, mas a segurança de todos. Defender a democracia é, antes de tudo, garantir que nunca mais o medo seja usado como instrumento de poder contra o próprio povo.


*) Prefeito de Macapá, governador e senador do Amapá. Autor da Lei Complementar nº 131/2009 (Lei da Transparência). Empreendedor da economia da floresta em pé.



**Nota do site: antes de eleger-se prefeito de Macapá, João Capiberibe - durante o período da ditadura militar - foi militante, preso e exilado político. Voltou ao Brasil nos início da década de 1880 após a Lei da Anistia, trabalhou com agricultura comunitária no Acre, foi secretário de Agricultura do Amapá durante o governo de Nova da Costa. Em 1988, elegeu-se prefeito.


Em tempo: a imagem que ilustra a abertura deste artigo foi criada por IA e retirada boatos difundidos na época: homens mascarados pulavam cercas com molas nos pés para atacar mulheres.

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